Cirurgia de Anel de Ferrara (intraestromal) para Ceratocone: Tudo sobre a Cirurgia que Pode Transformar sua Visão
O que é ceratocone?
O ceratocone é uma doença progressiva da córnea que causa afinamento e deformidade de sua superfície, levando à visão distorcida. Com o avançar do quadro, o uso de óculos e lentes de contato pode deixar de ser eficaz, exigindo soluções mais definitivas. Entre elas, o implante do anel de Ferrara, também conhecido como anel intracorneano, tem se destacado por melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Este texto traz um panorama completo sobre essa cirurgia, ajudando você a entender se esse procedimento é indicado para o seu caso.
O ceratocone é uma doença bilateral e assimétrica que provoca o afinamento progressivo da córnea, que adquire formato de cone. Isso causa astigmatismo irregular, miopia e séria distorção da visão. Embora possa começar de forma leve, o quadro tende a se agravar com o tempo, principalmente entre adolescentes e jovens adultos. O diagnóstico precoce é essencial para evitar complicações e garantir opções terapêuticas eficazes.
Estudos mostram que fatores genéticos e ambientais estão envolvidos no surgimento do ceratocone. Pacientes com histórico familiar têm maior propensão a desenvolver a doença, assim como aqueles com hábito de coçar os olhos com frequência. A exposição excessiva aos raios ultravioleta, o uso inadequado de lentes de contato e doenças alérgicas oculares também são fatores que contribuem para o aparecimento e a progressão do ceratocone.
O que é o anel de Ferrara?
O anel de Ferrara é um tipo de implante conhecido como segmento de anel intracorneano (ICRS). Ele é feito de material sintético (geralmente PMMA) e implantado no estroma da córnea. Sua função é remodelar o formato da córnea, reduzindo a irregularidade e permitindo melhor foco da luz na retina, com consequente ganho de acuidade visual. O nome “anel de Ferrara” refere-se ao modelo desenvolvido no Brasil pelo Dr. Paulo Ferrara.
Os segmentos podem ser implantados em diferentes localizações e com diferentes espessuras, dependendo da topografia corneana de cada paciente. A seleção cuidadosa desses parâmetros é fundamental para atingir o máximo de regularização da superfície corneana.
Indicações da cirurgia com anel intracorneano
O implante é indicado, principalmente, para pacientes com ceratocone moderado a avançado que não se adaptam bem a lentes de contato ou que apresentam piora progressiva da visão. Estudos mostram que os melhores resultados ocorrem em pacientes com significativa perda da função visual. Em casos iniciais com boa acuidade visual, a cirurgia pode não trazer os mesmos benefícios e até representar riscos de perda de linhas de visão.
Além disso, pacientes com córnea espessura mínima maior que 400 μm na região do implante e com topografia favorável tendem a ter melhores resultados. A existência de cicatrizes corneanas superficiais ou irregularidades muito acentuadas pode ser uma contraindicação ao procedimento.
Como é feita a cirurgia
O procedimento é minimamente invasivo e realizado com anestesia local. Utiliza-se, preferencialmente, o laser de femtossegundo, que cria um canal preciso na córnea onde o anel é implantado. A cirurgia dura cerca de 15 a 30 minutos e o paciente pode retornar para casa no mesmo dia. A escolha do tipo de anel, sua espessura e localização de implante dependem de uma análise detalhada da topografia corneana.
No passado, a técnica era realizada de forma manual, o que aumentava o risco de complicações, como a perfuração da córnea. Hoje, com o uso do laser, os túneis são feitos com extrema precisão e profundidade uniforme, reduzindo drasticamente os riscos e otimizando os resultados.
Recuperação e resultados esperados
A maioria dos pacientes percebe melhora visual nas primeiras semanas. A visão continua estabilizando por cerca de três a seis meses. A cirurgia não cura o ceratocone, mas melhora a qualidade visual e, em muitos casos, adia ou evita a necessidade de transplante de córnea. Estudos de longo prazo mostram que os resultados são estáveis em pacientes com ceratocone não progressivo.
Em alguns casos, mesmo após o implante, o uso de óculos ou lentes pode ser necessário para atingir a melhor visão possível. A grande vantagem do anel é permitir essa correção de forma mais eficaz e com maior conforto para o paciente. Pacientes com ceratocone em estágio inicial que ainda têm boa visão com óculos devem ser acompanhados com exames periódicos para detectar sinais de progressão e, se necessário, indicar a cirurgia em momento oportuno.
Complicações e riscos
Embora seja considerada segura, a cirurgia com anel de Ferrara pode ter complicações. Entre elas estão:
- Infecções bacterianas, especialmente por Staphylococcus aureus, que podem surgir nos primeiros dias ou mesmo anos após o procedimento.
- Extrusão do anel, especialmente em casos com técnicas manuais ou olhos muito irregulares.
- Halos, fotofobia, ou desconforto visual noturno.
- Necessidade de retirada do anel (explant), que ocorre entre 1% a 6% dos casos, conforme diferentes estudos.
Outro ponto importante é o desenvolvimento de ceratite infecciosa, ainda que raro. A ocorrência de infecções tardias pode estar relacionada ao uso prolongado de colírios antibóticos ou à contaminação por micro-organismos resistentes. Por isso, é essencial que o paciente siga todas as orientações de pós-operatório com rigor. O uso de colírios lubrificantes, anti-inflamatórios e o acompanhamento regular são fundamentais para prevenir eventos adversos.
Tecnologia a favor do resultado
A utilização de inteligência artificial para planejar a cirurgia tem se mostrado mais eficaz do que os métodos tradicionais. A IA ajuda a definir a melhor localização e espessura dos anéis, gerando resultados mais previsíveis e melhores correções das aberrações corneanas.
Plataformas modernas de topografia e tomografia corneana, como o Pentacam e o Galilei, permitem simulações pré-operatórias detalhadas. Isso aumenta a previsibilidade dos resultados e reduz as chances de necessidade de ajustes ou reoperações.
Diferença entre o anel de Ferrara e outras opções terapêuticas
O tratamento do ceratocone é individualizado. Em estágios iniciais, óculos ou lentes de contato especiais (como as lentes escleral ou RGP) são suficientes para restaurar a visão. Em estágios mais avançados, o anel de Ferrara representa uma opção cirúrgica intermediária entre o uso de lentes e o transplante de córnea.
Ao contrário do crosslinking, que visa estabilizar a progressão da doença, o anel atua diretamente na melhoria da visão. Ambos os procedimentos podem ser combinados em casos selecionados, proporcionando uma abordagem mista que visa tanto a estabilização quanto a reabilitação visual.
Importância do acompanhamento oftalmológico
Nenhum procedimento substitui o acompanhamento clínico regular. O ceratocone pode continuar a progredir mesmo após o implante do anel, especialmente em pacientes mais jovens. Por isso, a avaliação periódica da topografia corneana é essencial para monitorar o quadro e indicar novas intervenções quando necessárias.
Além disso, a resposta à cirurgia pode variar entre os olhos, mesmo em um mesmo paciente. Por isso, cada caso é avaliado de forma personalizada. Pacientes com histórico de progressão acelerada, como adolescentes, devem ser avaliados com mais frequência, e o uso de terapias combinadas (como o crosslinking) pode ser indicado.
Custos da cirurgia com anel de Ferrara
A cirurgia para implante do anel de Ferrara é um procedimento considerado de alta tecnologia, e seu custo pode variar de acordo com diversos fatores. Entre eles estão o tipo de tecnologia utilizada (como o uso do laser de femtossegundo), a complexidade do caso, os materiais empregados e a experiência da equipe cirúrgica.
No Brasil, o valor pode variar entre R$ 5.000 e R$ 15.000 por olho, dependendo da clínica e da região. Embora não seja coberta pelos planos de saúde em todos os casos, algumas operadoras aceitam a cobertura mediante pedido médico fundamentado. Além disso, em centros universitários e hospitais de referência, é possível realizar o procedimento via SUS, sem custo direto ao paciente.
Cobertura pela ANS e planos de saúde
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é o órgão que regula os planos de saúde no Brasil e define um Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde de cobertura obrigatória para beneficiários de planos com segmentação ambulatorial e hospitalar.
Para que o plano de saúde cubra o procedimento o paciente precisa ser enquadra na normativa abaixo:
IMPLANTE DE ANEL INTRAESTROMAL
- Cobertura obrigatória, para pacientes portadores de ceratocone, que apresentem visão insatisfatória com uso de óculos e lentes de contato ou que apresentem intolerância a lentes de contato, nos quais todas as modalidades de tratamento clínico tenham sido tentadas, quando preenchidos todos os critérios do Grupo I e nenhum dos critérios do Grupo II:
Grupo I
- ceratometria anterior máxima K > 53 Dioptrias e < 75 Dioptrias
- ausência de cicatriz central
- espessura corneana (paquimetria) >300 μm
Grupo II
- ceratocone com opacidade severa da córnea;
- hidropsia da córnea;
- associação com processo infeccioso local ou sistêmico em atividade;
- síndrome de erosão recorrente da córnea.
Considerações finais
O anel de Ferrara é uma excelente alternativa para muitos pacientes com ceratocone que buscam melhora na visão e qualidade de vida. No entanto, é fundamental que a indicação seja bem avaliada por um oftalmologista experiente. O sucesso da cirurgia depende tanto da seleção correta do paciente quanto da execução precisa do procedimento.
Ao longo dos anos, os avanços tecnológicos, o refinamento das indicações e a ampliação do conhecimento científico tornaram essa cirurgia cada vez mais segura e eficaz. Se você convive com ceratocone e busca uma solução para melhorar sua visão, converse com seu oftalmologista e avalie se o implante do anel de Ferrara pode ser o caminho ideal. O momento certo para essa decisão é essencial: quanto mais cedo a intervenção for feita em pacientes indicados, melhores serão os resultados a longo prazo.
Abaixo perguntas que recebemos de pacientes sobre o Anel de Ferrrara ou Anel Intraestromal da córnea:
- Doutor, vou sentir dor durante ou depois da cirurgia do anel?
Fique tranquilo(a), durante o procedimento você não sentirá dor — usamos anestesia em forma de colírio. No pós-operatório, pode haver um leve desconforto, como se tivesse areia no olho, mas é passageiro e bem controlado com colírios.
- Eu uso óculos desde criança. Será que depois do anel vou poder largar de vez?
Muita gente consegue reduzir bastante o grau após o implante, mas isso varia de pessoa para pessoa. Pode ser que você ainda precise de óculos ou lentes, mas com um grau bem menor e com muito mais conforto visual.
- Tenho muito medo de cirurgia. Esse procedimento é arriscado?
Eu entendo esse medo, e ele é super comum. Mas essa é uma cirurgia considerada segura, rápida e feita com tecnologia de ponta. Com um bom acompanhamento, os riscos são mínimos.
- Tenho ceratocone nos dois olhos. Posso operar os dois ao mesmo tempo?
Normalmente, a gente opera um olho por vez. Assim, avaliamos a resposta e garantimos uma recuperação mais tranquila. Mas, sim, é possível tratar os dois com intervalo de algumas semanas.
- As pessoas vão perceber que eu coloquei esse anel? Meu olho vai mudar de aparência?
Não, ninguém vai notar. O anel fica dentro da córnea, invisível a olho nu. Seu olho continua com a mesma aparência de sempre.
- Eu tenho plano de saúde. Será que ele cobre essa cirurgia?
Sim. É possível realizar a cirurgia via plano de saúde caso seu quadro se encaixe nas diretrizes da ANS. Caso não haja cobertura o custo da cirurgia vai variar de R$5000,00 a R$15000,00 por olho.
- Em quanto tempo vou poder voltar a trabalhar ou estudar?
A maioria das pessoas volta em 3 a 5 dias. É claro que depende da sua rotina — se você trabalha muito com telas, por exemplo, talvez precise de um pouco mais de tempo. Mas a recuperação costuma ser rápida.
- Tem alguma chance do meu corpo rejeitar esse anel?
Não. O material do anel é totalmente compatível com o corpo. Não há rejeição. O que pode acontecer, raramente, é o anel se deslocar ou sair da posição — mas a gente acompanha de perto e resolve se for preciso.
- Eu fiz crosslinking faz um tempo. Mesmo assim posso colocar o anel?
Sim! Os dois tratamentos se complementam. O crosslinking fortalece a córnea e o anel ajuda a melhorar a forma dela e a visão. Muita gente tem ótimos resultados com essa combinação.
- Tenho 16 anos. Já posso fazer essa cirurgia?
Depende do seu caso. A gente costuma avaliar com muito cuidado nessa idade. Às vezes, outras opções como o crosslinking são priorizadas primeiro. Mas se seu ceratocone estiver muito avançado, o anel pode ser indicado sim.
Dr. Aron Guimarães é médico oftalmologista especialista pela USP/SP e com mestrado e doutorado pela UNICAMP.
Fontes:
- Vega A, Alio JL. Criteria for patient selection and indication for intracorneal ring segments in keratoconus. Eye and Vision (2024). https://doi.org/10.1186/s40662-024-00379-0
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- Santodomingo-Rubido J et al. Keratoconus: An updated review. Contact Lens and Anterior Eye (2022). https://doi.org/10.1016/j.clae.2021.101559
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